Nas últimas semanas uma série de eventos me levaram a pensar sobre a minha relação com o meu pai. Foram acontecimentos mais ou menos aleatórios, alguns tristes, outros carregados de euforia: as leituras de um curso sobre memória, a preparação da festa de 75 anos do meu pai, a notícia do falecimento do pai de um casal de amigos muito querido. Pensando sobre qual filme comentar aqui, me ocorreu assistir “Aftersun” mais uma vez.
E esse filme é muito lindo, eu tenho até dificuldade de encontrar adjetivos, de comentar questões estéticas, porque me comove de uma maneira tão profunda que fica difícil interpretar o que tem ali e é capaz de gerar uma emoção dessa forma. Mas enfim, eu vou tentar. Uma das coisas que gosto muito é como o filme faz um jogo esquemático com o tempo, de modo que, enquanto assistimos, ele vai se montando, sobrepondo. Eu os identifico assim - e aqui peço licença para ser também esquemática:
Tempo 1: a viagem de férias para a Turquia. Calum é um pai muito jovem e seus traumas vão sendo revelados, assim como sua relação com a filha Sophie. Ele é o pai que some na noite da véspera de seu aniversário e, ao mesmo tempo, o que pede desculpas, que lembra da hora de reforçar o protetor solar. Sophie usufrui desse encontro e revela também suas inseguranças e desejos. Timidamente, diz ao pai que está com ele o tempo todo porque, se eles dividem o mesmo céu, ainda que em lugares diferentes, habitam o mesmo espaço.
Tempo 2: o tempo presente de Sophie. O rosto austero e reflexivo da mulher adulta é visto em cenas silenciosas em que habitam objetos e acontecimentos diretamente relacionados com essa experiência do passado: o tapete que o pai comprou na Turquia, o movimento circular da câmera que mostra uma foto da menina nessa viagem. Em uma noite precisa, Sophie acorda e sua companheira lhe deseja feliz aniversário. Na sequência, ela agradece, um bebê chora e ela se levanta para acolhê-lo.
Tempo do encontro: a cena da boate escura, as luzes piscando, o pai ofegante, o olhar que se cruza, o abraço aflito. Tudo no filme é marcado pela sutileza, aqui os movimentos bruscos são acolhidos nessa cena entrecortada pela luz e pelo som. Os dois tempos que mencionei se encontram aqui na elaboração da filha, na conjunção das experiências compartilhadas, da imaginação desse abraço em que os papeis se invertem e ela acolhe seu pai.
A despedida da cena final, no aeroporto, sugere uma despedida permanente, um fechamento. Sophie pôde elaborar, compreender algo sobre o efeito de seus próprios traumas? Se sente capaz de acolher o afeto que seu pai pôde oferecer? Não sabemos ao certo, mas a força da cena indica o quão marcante foi a experiência dessa viagem.
Os pais erram, é inevitável, eles estão aprendendo a ser pais enquanto tudo está acontecendo e isso não é algo que se faz sem deixar marcas. Mesmo os pais ausentes, os nunca identificados, figuram esse lugar vazio, que pode ser preenchido com outras figuras ou cirscunscrito realçando o lugar incômodo do abandono. Ignorar sua existência exige esforço, mas muitas vezes é um caminho também.
Eu morro de medo do dia que meu pai vai morrer, não só porque eu o amo - e dentro de mim talvez ainda sobre essa sensação de que a sua existência me protege de coisas que eu desconheço -, mas porque eu gosto dele, gosto de quando a gente vai no mercado, do jeito que ele reclama da forma como eu dirijo, da gargalhada que ele solta com coisas banais. E porque eu recorro a ele quando o carro da problema, quando eu preciso de uma sapateira nova e sei que ele vai gostar de fazer. Pensar num mundo em que eu não possa mais viver esses momentos me assusta.
Muitas vezes acreditei que existiam formas de me preparar para essa perda, mas hoje sei que não há, porque eu não sei como nem quando isso vai acontecer, também não sei que pessoa eu vou ser nesse dia, só sei que meu pai não é imortal, apesar de ser eterno enquanto eu viver. Assim, abraço essa resignação e vivo com ele tudo o quanto for possível. Arrisco dizer que os pais nunca morrem porque deixam marcas inapagáveis, pela presença ou pela ausência, tentando acertar ou apenas fazendo as coisas sem pensar muito a respeito.


