Esta não é uma crônica sobre cinema porque a cronista perdeu a vontade de escrever. Ela aparentemente foi capaz de se titular, o que pode significar alguma identificação pessoal, mas não o suficiente para seguir escrevendo quando começa a perceber que vai usar as mesmas fórmulas, dizer as mesmas coisas sobre o quão experimental ou tradicional é a forma desse filme, porque a luz faz isso e não aquilo ou como o enquadramento amplo faz lembrar não sei o que. Ela começou a se sentir assim como aqueles comentaristas de futebol que dizem sempre que o esporte é uma “caixinha de surpresas” ou que “quem não faz, toma”. Assistiu muitos jogos da Copa, algum resquício ia ficar.
A cronista as vezes pressupõe o que esperariam os leitores, mas logo em seguida vem uma risadinha de canto de boca, cumprindo seu papel leve e sarcástico, relembrando que essa parada aqui nem deve ter leitores, que , por princípio, não serve pra nada e que, talvez também por isso, possa ser o espaço de escrever sem nada novo a dizer.
A vida da cronista segue sem novidades, nenhum movimento mágico daqueles em que um mesmo assunto parece insistir em aparecer aleatoriamente, pedindo pra ser articulado, poetizado, associado a alguma lembrança em tom nostálgico. E tudo segue muito bem, ainda que a cronista ache estranho. Enquanto escreve o texto para o trabalho ao qual se dedica há três anos - e que também garante seu salário -, percebeu que começou a procurar filmes previamente pensando o que poderia dizer sobre eles. Aí perdeu a graça.
Mesmo assim foi ao cinema depois da final entre Argentina e Espanha. Errou o horário, precisou trocar o ingresso: o jogo era às 16h e não às 18h. Assistiu “Franz” na sala 5 do Belas Artes às 20h30. Saiu feliz porque achou que tinha gostado desse filme meio maluco. Muito branco o Kafka, magro e esquisito. Um sorriso insistente, meio tímido, meio perdido, nunca da pra saber se ele está tranquilo ou se poderia, a qualquer momento, explodir de raiva. Busca insistentemente se alistar como soldado na Primeira Guerra Mundial, mas seu trabalho na burocracia de Estado é muito valioso (!). Oscila entre os bloqueios de escrita e a irrupção de produtividade - desencadeada por relações confusas, uma delas com a humilde Felice. E o pai, um velho gordo e autoritário, mas também leitor e crítico, também está lá.
Já era tarde. A cronista caminhou sem pressa até o metrô, pensando essas coisas desconexas. Carregava a certeza tranquila de que não saberia explicar direito nada do que tinha visto no filme. Sinal de que esse era dos bons.



amei o texto, parabéns pela imaginação!
Uma delícia ler seu texto.